Postado em 22 de Março às 14h07

Videogame, violência e nossas crianças qual a relação entre eles?

Psicóloga comenta importância do diálogo na família como caminho para evitar que esta relação se transforme em tragédia. 

Por Joimara S. Camilotti
Xanxerê – A brutalidade aliada a cenas e roupas de um famoso jogo eletrônico chamado Free Fire, foi associado ao atentado ocorrido na cidade de Suzano/SP, quando um adolescente de 17 anos e um jovem de 25 invadiram uma escola com revólver, machadinhas, arco e flecha. 

Não é de hoje que existe no senso comum de que os jogos podem influenciar o comportamento das crianças e adolescentes. Mas será mesmo?

Há inclusive grupos de games que desencadearam uma campanha afirmando que são jogadores e não assassinos. Buscando um raciocínio clínico para tal situação, conversamos com a psicóloga Debora Biazzi que comenta a questão.

Jogos eletrônicos podem estimular a violência entre os jovens? Qual a relação entre eles?
Debora: Os jogos eletrônicos podem sim gerar reações agressivas, principalmente em crianças pequenas (tapas, socos...), porém, não são um gatilho importante de atitudes violentas para crianças maiores. Importante ressaltar que, os jogos, sozinhos, não são capazes de incitar atos violentos como foi o caso de Suzano – SP, pois, atitudes assim são fomentadas por uma série de fatores que, em conjunto, geram a motivação para que tais atos ocorram. Mas é importante que os pais fiquem atentos e conversem sobre os conteúdos dos jogos que estão a disposição das crianças, principalmente com as mais jovens.

Como perceber que jovens podem estar sendo perturbados por ações externas que possam resultar em tal massacre como o ocorrido?
Debora: Ficar atento às mudanças de comportamento e de atitude das crianças e adolescentes é um dos pontos mais importantes para perceber que há uma influência externa causando sofrimento. Tanto os pais quanto a escola devem buscar estabelecer uma relação de diálogo e proximidade com os alunos(as)/filhos(as), construindo ambientes onde se sintam confortáveis para dialogar a respeito das questões emocionais que causam sofrimento em seus cotidianos. Perceber que um aluno sofre bullying, por exemplo, é uma oportunidade não de culpar quem está praticando, mas de abrir espaço para que os alunos possam conversar e expor as diversas emoções envolvidas em tais situações, tanto para quem sofre quanto para quem pratica e de aprender sobre o assunto. E esse exemplo serve para todas as situações cotidianas que envolvem relações interpessoais: utilizá-las como oportunidade de aprendizado e ressignificação dos sofrimentos.


Como os pais devem agir ao perceber atitudes estranhas dos filhos, como permanecer muito tempo jogando, ou sozinhos?
Debora: Relações de confiança estabelecidas entre pais e filhos são essenciais para que possamos perceber atitudes diferentes. São os pequenos detalhes do dia a dia que poderão nos mostrar que nossos filhos estão sofrendo com algo. Prestar atenção às atitudes de nossos filhos pode nos apoiar para conseguirmos nos tornar mais próximos deles. Não é a nota baixa, mas chegar todos os dias aborrecido da escola que pode ser um indício de que algo não está legal. Ficar muito tempo jogando, sozinho ou fechado no quarto pode ser uma tentativa de fuga de uma situação que a criança ou o adolescente não consegue ou não quer enfrentar, por não ter ferramentas emocionais para tal. Por outro lado, pode ser que o papo familiar não seja tão interessante ou que o jogo do videogame seja tão instigante a ponto de fazer com que o adolescente perca a noção do tempo que passa jogando. Porém, é importantíssimo que os pais e familiares não desistam de fazer com que a relação com as crianças e adolescentes seja mais próxima, buscando assuntos dos quais eles queiram falar, ouvindo atentamente e respeitando as opiniões e ideologias, ainda em construção, de seus filhos, pois é aí que terão a oportunidade de conhecê-los e auxiliar na sua formação para a vida. Uma dica bacana é fazer todas as semanas uma noite para que a família possa se divertir junto: pode ser noite de jogos, de cinema, os adultos podem colocar-se a disposição para aprender a jogar videogame... são muitas as opções, basta escolher aquelas que se encaixam com a rotina e os gostos da sua família.

Reações como a dos ex-alunos podem ser percebidas antes do fato? Como?
Debora: Essa é uma pergunta difícil de responder, pois ao mesmo tempo em que são vários os sinais que podem ser percebidos, há diversos fatores envolvidos que nem sempre chegam ao conhecimento ou percepção dos adultos. Atos de extrema violência, como foi o caso de Suzano, são geralmente precedidos de períodos de sofrimento intenso, que podem ser bastante prolongados. Porém, não há uma regra para tais reações, pois podem também ser fruto de impulsos impensados ou de surtos de ordem psicológica (como na esquizofrenia, por exemplo).
Mais uma vez, é essencial ressaltar a importância de estar presente de verdade, atento e próximo aos seus filhos e alunos, pois só assim poderemos perceber sinais de sofrimento que podem culminar em atos violentos.

O que fazer para evitar que novos episódios como este de Suzano se repitam?
Debora: Essa é uma resposta que envolve diversos fatores e segmentos da sociedade. Porém, o que podemos fazer, enquanto cidadãos, é começar dentro de nossas casas e escolas. Pensar a respeito de nossas atitudes diárias é um importante passo para percebermos que nossos filhos são o reflexo daquilo que vivem diariamente: em casa, na escola, nos grupos sociais que frequentam, nas coisas que leem. Discursos de ódio e de intolerância (seja ela racial, religiosa, de gênero, a opiniões que sejam diferentes daquelas que temos, etc...) por exemplo, são frequentemente vistos nas redes sociais e podem ser formadores de opiniões e exemplos de atitudes a serem seguidas por crianças e adolescentes. A velha premissa de que violência gera violência nunca foi tão verdadeira e nunca foi tão necessário falar sobre isso. Estar atento ao que falamos, fazemos e compartilhamos é importante, e, quando gera qualquer tipo de sofrimento, a qualquer pessoa, vale a pena ser repensado.
Outra questão importante a ser repensada, é o ritmo de vida acelerado e sempre cheio de compromissos ao qual estamos submetidos, muitas vezes não nos permitindo ser próximos e verdadeiramente presentes na vida de nossas crianças e adolescentes. Quantas vezes pedimos aos nossos filhos, amigos, familiares, companheiros e colegas de trabalho se está tudo bem sem verdadeiramente estar atento e interessado no que ele(a)vai nos dizer? Estar presente não é o mesmo que SER presente, e o primeiro passo para evitar que nossas crianças e adolescentes não sofram sozinhos com suas necessidades é reavaliar nossas prioridades e a forma como estamos conduzindo nossas relações e nossas escolhas.
Claro, pode ser que todas essas mudanças não sejam capazes de evitar que tragédias como a de Suzano voltem a acontecer. Porém, é nosso dever enquanto pais e educadores e adultos que convivem com crianças e adolescentes suprir suas necessidades emocionais e mostrar que o amor é sempre o melhor caminho.

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